Poder paralelo: o avanço do crime organizado e o desafio ao Estado Democrático

Poder paralelo: o avanço do crime organizado e o desafio ao Estado Democrático

Por Vicente Braga

O crime organizado deixou de ser um fenômeno restrito ao tráfico de drogas e às zonas periféricas das grandes cidades. Nos últimos anos, o país tem assistido à sua consolidação como uma estrutura empresarial complexa, que atua de forma transversal em diversos setores da economia formal. A infiltração em segmentos como a mineração, o mercado de combustíveis e o comércio de bebidas demonstra a capacidade de adaptação dessas organizações e sua crescente sofisticação financeira.

Um estudo recente publicado pela Cambridge University Press traz um dado alarmante: mais de 50 milhões de brasileiros — cerca de 26% da população — vivem em áreas sob influência direta de facções criminosas, que impõem regras próprias e exercem controle social. O levantamento coloca o Brasil como líder na América Latina em “governança criminal”, fenômeno que traduz a erosão da autoridade estatal em territórios dominados por organizações ilícitas.

A Operação Carbono Oculto, deflagrada recentemente por forças de segurança federais e estaduais, expôs de forma contundente essa nova face do crime organizado. A investigação revelou o uso de empresas de fachada e de cadeias logísticas complexas para movimentar combustíveis de origem irregular, contaminados ou adulterados — muitos deles, como o metanol, com alto risco à saúde pública.

O impacto econômico dessa prática é igualmente preocupante. De acordo com levantamento do Instituto Combustível Legal (ICL) em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), o comércio ilegal de combustíveis provoca um prejuízo superior a R$ 30 bilhões por ano à economia brasileira. Trata-se de um esquema que fragiliza a arrecadação tributária, distorce a concorrência leal e financia atividades criminosas de alta complexidade, comprometendo o ambiente de negócios e a segurança da sociedade.

Esses fatos evidenciam que o combate ao crime organizado exige mais do que ações pontuais: requer integração institucional, inteligência e cooperação federativa. É imprescindível que as forças de segurança, o Ministério Público, as agências reguladoras e os órgãos de controle atuem de maneira coordenada, rompendo a fragmentação que historicamente favoreceu a impunidade e o avanço das facções.

A expansão do crime organizado não representa apenas uma ameaça à ordem pública — ela desafia diretamente o Estado Democrático de Direito, ao corroer sua autoridade, subverter regras de mercado e enfraquecer o pacto constitucional de cidadania. Permitir que estruturas criminosas substituam o Estado na regulação da vida social é admitir a privatização da soberania e a negação de direitos fundamentais.

Por isso, mais do que repressão, é necessário reafirmar o papel do Estado como guardião da lei e promotor do bem comum, fortalecendo suas instituições, modernizando os instrumentos de investigação e consolidando uma cultura de legalidade que una sociedade e poder público em torno de um mesmo propósito. O enfrentamento ao crime organizado deve ser permanente, sustentado por inteligência e compromisso ético com a coisa pública, capaz de reafirmar a autoridade legítima sobre o território e a vida social. Combater o crime organizado é, em última instância, defender a Constituição e preservar a democracia.

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