Saul Klein sofre terceira derrota judicial em dois meses na disputa pela herança do fundador das Casas Bahia
O herdeiro Saul Klein sofreu a terceira grande derrota em menos de dois meses na disputa pela herança do patriarca Samuel Klein, fundador das Casas Bahia. A mais recente decisão, proferida pela 4ª Vara Cível de São Caetano do Sul, negou o pedido de antecipação de valores do inventário sob o argumento de que o pleito apresentava “contradições internas insanáveis”.
O juiz José Francisco Matos destacou que Saul busca, ao mesmo tempo, invalidar o acordo de partilha assinado com os irmãos há dez anos e se beneficiar do mesmo documento para obter recursos. “Não se pode, simultaneamente, atacar a validade de um ato e extrair dele efeitos jurídicos úteis apenas quando conveniente”, registrou o magistrado. Ele lembrou ainda que o herdeiro já havia levantado aproximadamente R$ 30 milhões e que o Tribunal de Justiça paulista já advertira que o inventário não poderia ser tratado como “caixa eletrônico”.
Outro ponto considerado foi a ausência de provas de despesas médicas urgentes não cobertas por plano de saúde. A decisão também citou o contrato firmado por Saul com a empresa 360 Graus, que lhe assegura renda mensal de R$ 100 mil e o custeio de parte de seus gastos pessoais, em troca de 30% de sua herança futura.
FALSA ACUSAÇÃO DE FALSIFICAÇÃO
Dois anos antes, Saul havia tentado sustentar na Justiça que o pai, Samuel Klein, não era autor das assinaturas em seu testamento público de 2013 nem em alterações societárias da Casas Bahia entre 2012 e 2014. O argumento foi baseado em parecer técnico particular contratado pelo próprio herdeiro, que levou à abertura de um inquérito criminal em 2023 para apurar suposta falsificação de documento público e estelionato.
Michael Klein, irmão de Saul, contestou de imediato a acusação e apresentou laudos que atestavam a autenticidade das assinaturas, justificando as variações gráficas pela idade avançada e pelo estado de saúde do patriarca. Para resolver a controvérsia, a Promotoria de Justiça determinou a realização de perícia oficial no Instituto de Criminalística.
O laudo, divulgado em julho de 2025, analisou 60 assinaturas originais de Samuel Klein, produzidas entre 1968 e 2014, e concluiu que todas eram autênticas, sem qualquer indício de falsificação. Com base nessa prova técnica, o Ministério Público de São Paulo pediu o arquivamento do inquérito, reconhecendo que não havia crime a ser apurado.
A perícia representou um golpe duro para Saul, já que desmontou a narrativa que sustentava há dois anos e que havia sido amplamente noticiada pela imprensa em 2023 e 2024. O resultado não apenas enfraqueceu sua posição no inventário, como reforçou a credibilidade dos demais herdeiros, que sempre defenderam a validade dos documentos assinados pelo patriarca.
LITIGATION CAPITAL
A decisão que negou o pedido de antecipação de herança também destacou a existência do contrato firmado por Saul com a empresa 360 Graus. O arranjo garante a ele uma mesada de R$ 100 mil e o custeio de despesas pessoais em troca de 30% de sua herança futura.
Esse acordo é classificado como litigation capital, prática em que terceiros financiam disputas judiciais em troca de participação nos resultados. No caso, os recursos vêm de Enzo Gorentzvaig, sócio da 360 Graus, e de seu sogro, Antonio Carlos Fazio Júnior. Ambos já foram citados em decisões judiciais como diretamente interessados no desfecho do inventário, por dependerem de uma eventual vitória de Saul para recuperar os valores investidos.
Para a Justiça, esse modelo desequilibrou ainda mais a disputa. Ao abrir mão de parte de seus direitos para garantir liquidez imediata, Saul ampliou sua dependência financeira e passou a sustentar teses frágeis sobre ocultação de bens e falsificação de documentos, que não resistiram à análise pericial e às decisões judiciais.
DERROTA INTERNACIONAL
Na tentativa de internacionalizar a disputa, Saul acionou a Justiça norte-americana alegando suposta ocultação de patrimônio de Samuel Klein em favor dos demais herdeiros. Os tribunais dos EUA, porém, rejeitaram seus pedidos por falta de provas mínimas.
A negativa nos Estados Unidos reforçou o isolamento jurídico de Saul, que viu sua tese ser recusada em duas jurisdições distintas. O episódio marcou o segundo revés em pouco tempo, antecedendo a decisão da Justiça paulista que agora lhe nega novo adiantamento da herança.
AÇÃO DE PATERNIDADE
Outro fator de peso considerado pelo juiz José Francisco Matos é a pendência de uma ação de investigação de paternidade movida pelo espólio de Moacyr Ramos de Paiva Augustinho Júnior. Caso reconhecido, o pedido pode alterar a divisão da herança, avaliada em cerca de R$ 500 milhões.
Com esse cenário de incertezas, o magistrado concluiu que não há parcela incontroversa que pudesse ser liberada exclusivamente a Saul neste momento. Apesar das teses frágeis, o juiz rejeitou o pedido dos demais herdeiros para condená-lo por litigância de má-fé, entendendo que não ficou caracterizada intenção deliberada de fraudar o Judiciário.
UMA DÉCADA DE LITÍGIOS
O inventário de Samuel Klein se arrasta há mais de dez anos. Parte da demora se explica pelo próprio Saul, que após firmar o contrato com a 360 Graus passou a contestar a partilha que ele mesmo havia assinado com os irmãos. As novas alegações prolongaram a disputa e multiplicaram processos em diferentes frentes, sem avanço na homologação final.
TRÊS DERROTAS EM SEQUÊNCIA
O conjunto de decisões dos últimos dois meses marcou uma virada na disputa. Saul sofreu três derrotas consecutivas:
• a perícia oficial que comprovou a autenticidade das assinaturas do pai e levou ao arquivamento do inquérito de falsificação;
• a rejeição pela Justiça norte-americana de suas alegações sobre ocultação de bens;
• e a decisão da 4ª Vara Cível de São Caetano do Sul que negou o pedido de antecipação de herança por contradições internas.
Mais de uma década após a morte de Samuel Klein, a partilha de uma fortuna estimada em quase R$ 500 milhões segue sem homologação final, mas as recentes derrotas judiciais sinalizam um cenário cada vez mais desfavorável para Saul Klein, que insiste em contestar os termos já pactuados.
Comentários (0)
Deixe seu comentário