Defensoria de Alagoas aciona Justiça para desocupar dois bairros com solo afundado por extração de minério em Maceió

Defensoria de Alagoas aciona Justiça para desocupar dois bairros com solo afundado por extração de minério em Maceió

A Defensoria Pública de Alagoas e o Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB) ingressaram com uma Ação Civil Pública (ACP) contra a petroquímica Braskem e o Município de Maceió. A ação exige a interdição e desocupação urgente das comunidades de Flexal de Cima e Flexal de Baixo, áreas que ficaram isoladas e vulneráveis após o afundamento do solo em bairros vizinhos, causado pela mineração de sal-gema.

A petição abrange 3.169 moradias e busca não apenas a realocação integral das famílias, mas também a condenação da Braskem ao pagamento de R$ 1,7 bilhão em indenizações por danos morais e materiais.

MAPA DE RISCO DESATUALIZADO

O foco jurídico da ACP é a alegada omissão da Prefeitura de Maceió, acusada de manter um Mapa de Ações Prioritárias "desatualizado e arbitrário". A exclusão da região dos Flexais do perímetro de risco geológico impede que os moradores tenham acesso às compensações financeiras pagas pela Braskem nas demais áreas atingidas.

Segundo a Defensoria, a prefeitura descumpre a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil ao endossar um mapa de risco considerado "cientificamente inválido". A petição invoca o princípio da precaução, alertando para uma possível "tragédia anunciada" caso a inação persista, resumindo o mandamento em: "na dúvida, deve-se proteger vidas".

INSTABILIDADE DOS FLEXAIS

O pleito da ACP é amparado em um relatório técnico internacional crucial, publicado em agosto de 2025 e coordenado pelo geólogo Marcos Eduardo Hartwig, com participação de pesquisadores brasileiros (INPE, UFES, UFAL) e alemães (Leibniz University Hannover).

O estudo científico aponta que o solo dos Flexais sofre movimentos verticais e horizontais superiores a 10mm por ano, o dobro do limite de 5mm adotado pela Defesa Civil municipal. Os especialistas concluíram que esses deslocamentos multidirecionais não são naturais, mas são resultado "direto da mineração de sal-gema realizada pela Braskem nas margens da Lagoa Mundaú".

"Essa constatação técnico-científica é decisiva: ela vincula de forma inequívoca o fenômeno geológico dos Flexais à atividade minerária da Braskem", afirma o relatório, que critica a metodologia da Prefeitura por ser "cientificamente incorreta e sem respaldo técnico."

PRECEDENTE DE MARIANA

A ação exige que a Braskem seja obrigada a incluir automaticamente todos os moradores dos Flexais no programa de compensação. O MUVB e a Defensoria demandam que seja aplicado o princípio da reparação integral, que exige que a empresa responda não apenas pelos danos materiais, mas também pelos "humanos, ambientais e simbólicos".

Como referência para o cálculo das indenizações, o movimento pede que seja utilizada a matriz de danos elaborada pela Cáritas Brasileira no contexto do desastre de Mariana (MG).

A Braskem, que reconheceu em 2024 sua responsabilidade pelo afundamento do solo, sustenta que suas ações de compensação e monitoramento seguem critérios técnicos e foram definidas em conjunto com autoridades. A empresa afirma ter paralisado a extração de sal-gema em 2019, realocado preventivamente cerca de 40 mil pessoas e apresentado 19 mil propostas de indenização.

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