A inteligência artificial não é neutra. E isso muda tudo

A inteligência artificial não é neutra. E isso muda tudo

Por Luiz Cláudio Allemand

O filósofo e economista Francis Fukuyama, ainda no ano 2000, levantou uma questão que ressoa mais forte do que nunca em 2025: poderiam as democracias da era da informação manter a ordem social diante das mudanças tecnológicas e econômicas? A reflexão surgiu quando as redes sociais ainda engatinhavam e muito antes da inteligência artificial (IA) ocupar espaço central em nossas vidas. Passadas duas décadas, a pergunta revela-se um ponto de partida para compreender os dilemas éticos e sociais que agora enfrentamos.

A IA desponta como a mais transformadora das inovações recentes. A capacidade de processar informações em segundos e de ampliar horizontes científicos e econômicos desafia qualquer parâmetro conhecido. Ela aproxima conhecimento e solução de problemas, democratiza o acesso a ferramentas sofisticadas e acelera decisões que antes consumiam meses de análise. Esse avanço, porém, não vem isento de riscos e exige reflexão madura sobre seus limites.

O debate não deve ser sobre aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas sobre como integrá-la à vida social e econômica. O desafio consiste em aprender a lidar com a máquina, entendendo a lógica dos algoritmos, questionando-os e adaptando-os às necessidades coletivas. Sem esse cuidado, os mesmos sistemas que prometem eficiência podem acentuar desigualdades, replicar preconceitos ou comprometer a privacidade. A tecnologia não é neutra: reflete escolhas humanas, conscientes ou não.

Essa realidade impõe responsabilidades a todos os envolvidos. Desenvolvedores precisam criar sistemas transparentes e seguros. Empresas e governos, ao utilizarem essas ferramentas, devem considerar seus impactos sociais. Reguladores têm a tarefa de equilibrar estímulo à inovação com a preservação de direitos. O resultado desse esforço conjunto definirá se a IA se consolidará como motor de desenvolvimento ou como fator de exclusão.

A inclusão, aliás, é outro ponto decisivo. A sociedade brasileira, historicamente marcada por tutelas e desigualdades, só colherá seus benefícios se houver acesso amplo à capacitação digital e oportunidades de uso. Caso contrário, a sociedade participativa na era da informação, pautada pela economia do conhecimento, corre o risco de aprofundar o abismo entre os que dominam a tecnologia e os que permanecem à margem dela.

A questão ética é igualmente central. Sistemas que influenciam decisões em áreas como crédito, saúde ou mercado de trabalho devem ser avaliados com rigor para evitar distorções e discriminações. Quando a delegação de escolhas humanas a algoritmos ocorre sem a devida supervisão, a tecnologia deixa de ser apoio e passa a ser ameaça à justiça social.

Também a privacidade está em jogo. Dados pessoais se tornaram o combustível da economia digital e a IA potencializa o uso dessa matéria-prima em escala exponencial. A proteção das informações individuais é hoje um dos maiores desafios jurídicos e sociais, exigindo vigilância permanente e responsabilidade compartilhada.

A construção do futuro digital não cabe exclusivamente a especialistas em laboratórios ou a autoridades em gabinetes. Dependerá da consciência com que empresas, governos e cidadãos decidirem interagir com a tecnologia. A IA concentra poder e, como todo poder, precisa de contrapesos institucionais, critérios éticos e visão estratégica.

A advertência de Fukuyama permanece atual: tecnologias transformam estruturas econômicas, assim como reconfiguram laços sociais e valores coletivos. Cabe a nós decidirmos se elas aprofundarão o isolamento e a fragmentação ou se se tornarão alavancas para sociedades mais inclusivas, justas e solidárias.

A máquina já está entre nós; o que segue em aberto é como a humanidade escolherá jogar esse novo jogo. A escolha está, literalmente, em nossas mãos. Não se luta contra a máquina, mas com a máquina. Entretanto, é preciso conhecer quais são as regras do jogo.

Luiz Cláudio Allemand é advogado, Mestre em Direito Tributário, LLM pela Steinbeis University Berlim e diretor jurídico da Fiesp

Artigo originalmente publicado pela ES Brasil

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